Histórias e Lendas

O sapo mágico

sapo                                O sapo mágico
Era uma vez uma menina...parecida com tantas meninas que todos nós conhecemos. Tinha uns olhos grandes e vivos, um narizito arrebitado e um sorriso muito, muito alegre.

Fazia as suas travessuras – como todos os meninos e meninas, claro – mas era uma boa menina. Gostava muito de brincar, correr e saltar e na escola não havia jogo em que ela não participasse!...
Um dia, ao acordar, a menina saltou da cama e... ui! Que grande dor tinha no seu joelho! Surpreendida foi para as aulas, devagarinho, esperando que a dor se fosse embora. Mas ela não foi! Passaram-se dias e a “menina-com-dor-no-joelho” deixou de poder ir a pé, com os colegas, para a escola.

No recreio, os outros meninos convidavam-na para jogar, correr e saltar e ela dizia que não, que não lhe apetecia... E sentava-se sozinha, esperando, de coração apertado, que aquela dor se fosse embora...!

E a menina foi ficando cada dia mais triste, cada dia mais só. O sorriso desapareceu da sua face, os olhos perderam o brilho, escondido atrás de uma lágrima rebelde que teimava em aparecer. E quando o médico disse que tinha que ficar em casa, a descansar, quase que nem se importou... Ir à escola era tão bom, mas agora já nem podia brincar ... os colegas de certeza que já não iam querer estar com ela...!

E cheia de pensamentos tristes como estes, a menina sentava-se todos os dias, na companhia do seu cão, debaixo de uma grande árvore que tinha no seu quintal e aí ficava, cada vez mais desolada.

Um dia ouviu uma vózinha esquisita:
- Psiu! Ó menina, porque é que estás tão triste?
A menina olhou em todas as direcções mas não viu ninguém. Então ouviu novamente:
- Estou a falar contigo! Podias ser bem-educada e ao menos responder-me, não achas?

Cada vez mais surpreendida a menina viu à sua frente um sapo muito engraçado, que usava...imaginem só! uma cartola e que falava com ela...
- Mas, mas... – gaguejou a menina - tu falas ? Quem és tu?
-Sou um sapo mágico. Quer dizer, dantes era um coelho que trabalhava para um mágico, mas ele zangou-se comigo e transformou-me em sapo. Mas eu vinguei-me! Aprendi todos os seus truques e depois vim-me embora.
Agora só tem um pato velho e marreco para o ajudar!
- Mas...e tu? Todos os dias te vejo vir para aqui e juro-te que nunca vi uma menina que não sorrisse, cantasse ou brincasse como tu... O que se passa?

A menina gostou daquele sapinho tão engraçado e contou-lhe tudo...da dor que não se ia embora, dos amigos com quem já não podia brincar, das saudades que tinha da escola...

O sapo ouviu com muita atenção e depois de pensar um bocadinho, deu um grande salto e disse:
- Já sei! Tenho a solução! Como sou um sapo mágico vou-te ensinar alguns truques de magia. Tu vais convidar os teus colegas para cá virem depois da escola e mostras-lhes a magia que sabes fazer! Queres experimentar?

A menina ficou entusiasmada e quis logo começar a aprender alguns truques. Depois, mandou um convite aos seus colegas e no dia seguinte a mãe preparou um óptimo lanche e os meninos começaram a chegar.

Primeiro ficaram surpreendidos, depois ficaram encantados com a magia que a menina sabia fazer e por fim ficaram muito contentes por que a menina já ria e falava novamente e os seus olhos começavam a ganhar aquele brilho especial de que todos gostavam. Divertiram-se muito e combinaram voltar no dia seguinte para verem os novos truques que a menina prometeu que faria.
E assim se foram passando os dias. De manhã, o sapinho ensinava novas magias à menina e à tarde  ela recebia os seus amigos e todos se divertiam muito.

Mas, um dia a menina piorou da dor do joelho. Não se pôde levantar da cama, nem sequer ir ter com o seu amigo sapinho, debaixo da grande árvore! E ficou muito triste e preocupada...
-E agora o que vou fazer para que os meus amigos venham cá? - pensava entristecida.
 
À tarde todos os meninos apareceram na mesma e ela disse-lhes que se podiam ir embora porque já não sabia mais truques e não podia correr nem brincar como eles...Os meninos olharam uns para os outros e pensaram que não se queriam ir embora. Afinal era tão agradável estar ali com aquela amiguinha  de que tanto gostavam! Indecisos, ficaram calados, sem se moverem, até que um deles disse de repente, timidamente:
-Eu sei um jogo que podíamos fazer mesmo contigo na cama...
-E eu sei adivinhas e anedotas – disse outro.
- E eu tenho lá em casa um jogo de construções que podíamos fazer todos!

E para grande espanto da menina, todos ficaram. E inventaram novos jogos, conversaram e riram tanto, que todos saíram muito contentes e claro, prometeram voltar no dia seguinte.
Os dias passaram. O sapinho, admirado, via todos os dias muitos meninos e meninas entrarem na casa da “menina - com - dor - no - joelho”, mas ela não aparecia para aprender os seus truques...!

Muito intrigado, o sapinho mágico saltou com ligeireza nas suas longas pernas e conseguiu chegar ao parapeito da janela do quarto da sua amiga. Espreitou e viu, espantado, várias crianças sentadas junto à cama da menina.

 Jogavam, riam e pareciam todos muito contentes. A menina, ria também. Os seus olhos pareciam maiores, as faces estavam rosadas e ele viu algo que o deixou maravilhado! A menina tinha um sorriso enorme, que lhe fazia covinhas na face e que parecia iluminar todo o quarto!

De repente o sapinho compreendeu!
A menina tinha aprendido a maior das magias, e por isso já não precisava dele.

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A menina aprendera a Magia da Amizade!




Carta ao David

Carta ao David

(Carta a um menino, doente crónico, que se chama David, mas poderia chamar-se João, André, Paulo ou qualquer outro nome).

David,

Decidi escrever-te, agora que já sabes ler sozinho, porque eu gosto muito de histórias e naturalmente ainda ninguém te contou a história do Rei David, que dizem ser verdadeira.

Há muitos, muitos anos, havia um rei que andava muito triste e só lhe apetecia chorar, porque tudo lhe corria mal e tinha muitos inimigos. Então, um amigo do rei decidiu ir à procura de alguém que fosse capaz de curar aquela tristeza. Apresentaram-lhe muitos rapazes, altos, alegres e fortes,  mas o amigo do rei sabia que precisava de alguém muito especial para ser boa companhia para o rei.


david3Por fim lembraram-se de um jovem pastor, que se chamava David. David era um rapaz de aspecto frágil, mas muito simpático. Andava sozinho pelos campos com as suas ovelhas e tinha aprendido a defendê-las dos lobos e dos ursos.


Como era muito amigo da Natureza e dos animais andava sempre contente. Enquanto as ovelhas pastavam costumava  sentar-se debaixo de uma árvore ou em cima de um rochedo, a tocar harpa.

O amigo do rei, quando viu o David disse logo: "É mesmo este rapaz, que não tem medo de estar sozinho, que é valente e corajoso e anda sempre contente, que o meu rei precisa de conhecer."  E levou David ao rei.

O rei, que se chamava Saul, ao ouvir David tocar a sua harpa e ao ver que ele era apenas um rapazinho mas  que não tinha medo de nada, fez logo de David o seu escudeiro e ao pé dele não se sentia nunca triste.

Porém, os inimigos do rei Saul não desistiam de lhe fazer mal. Arranjaram um gigante enorme, que se chamava Golias e todos os dias o gigante, armado da cabeça aos pés, aparecia na terra do rei Saul e metia medo a todos gritando: "Quem é o homem que é capaz de lutar em duelo comigo? " E todos fugiam cheios de medo, enquanto o gigante Golias se ria e chamava cobarde ao rei  e a todos os habitantes do reino.

Um dia, David, que vinha a chegar do campo de ao pé das suas ovelhas, viu o gigante Golias e pensou: " Isto não pode continuar. Vou combater eu. Não tenho medo. Eu já lutei com leões, ursos e lobos  para defender as minhas ovelhas. Agora vou lutar para defender o rei, que é meu amigo."

Todos acharam que David estava maluco. Ele era pequeno e o gigante deitava-o ao chão só com uma bofetada. Mas o rei, que conhecia a força especial de David,   vestiu-lhe a sua própria armadura e disse-lhe: "Vai, e que Deus esteja contigo! "

David tentou ver se podia andar com aquelas armas a que não estava habituado e que eram muito pesadas para ele. Como não se conseguia quase mexer com o peso da armadura, tirou tudo e foi tal como costumava andar no meio das ovelhas. Apanhou, ao pé de um regato, cinco pedrinhas lisas, meteu-as na sua bolsa e foi ter com o gigante Golias apenas com o seu cajado de pastor.

Quando o gigante o viu, tão pequeno e desarmado, desatou-se a rir e perguntou-lhe: "Sou algum cão para vires contra mim com um pau na mão? " Respondeu-lhe David: "Tu vens para mim armado de espada, lança e escudo; eu, porém, vou para ti com a força da alegria e o Amor que tenho no meu coração! "

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Furioso, o gigante avançou contra David. David, num instante, meteu a mão à sua bolsa, tirou uma pedrinha e com uma fisga, atirou -a à cabeça do gigante, que caiu logo morto.



Foi grande a alegria no reino do rei Saul.



Depois de muitas aventuras, David casou-se com a princesa e tornou-se um dos reis mais importantes de todos os tempos.


Sei que tu às vezes deves andar aborrecido por teres que ir tantas vezes ao hospital, estares doente e faltares à escola. Mas também tenho a certeza que, por isso mesmo, deves ser o rapazinho mais valente e corajoso de todos os meninos da tua idade. Porque, como David, aprendeste já, sozinho, muitas coisas que os outros  meninos não sabem. Não tenho razão?

David mostrou que não é preciso ter muita força nos músculos, nem ser um gigante para vencer. É preciso é usar a inteligência, ser VALENTE, como tu tens sido, e acreditar que com a ajuda da força da Alegria e do Amor de Deus podemos vencer muitas dificuldades que aos outros metem medo.

Um beijo grande para ti, que te chamas David, João, André, ou tens qualquer outro nome, mas aprendeste a superar todos os dias as tuas dificuldades.

Fernanda Ruaz
 

As três peneiras

mae miudo
O pequeno Raul saiu da escola a correr, chegou a casa excitado e ao beijar a mãe, exclamou: 


-Já sabes o que dizem do António?

- Espera lá, já me contas; mas antes de principiares lembra-te das três peneiras...

- Quais peneiras, minha mãe?



- A primeira chama-se VERDADE.

- Tens a certeza de que é certo o que me queres dizer?
- Não; se é certo, não sei.
- Vês?

- E a segunda, chama-se BENEVOLÊNCIA. Será benevolente, será boa, essa noticia que me trazes?
- Não, minha mãe, não é boa.
- Vês? 

- E a terceira chama-se NECESSIDADE. Será necessário repetires-me tudo isso que te contaram desse teu camarada e amigo?
- Não, minha mãe.

- Pois se não é necessário nem benevolente, e talvez nem seja verdade, é preferível meu filho, calares a tua boca.

( António Botto)  Histórias para Crianças
Poeta Português - 1897

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