Testemunho da Joana

Testemunho da Joana

Os papéis rasgados e atirados para o lixo, as inúmeras palavras sem sentido, os sentimentos de revolta nascidos e sufocados no mesmo espírito, pensamentos que ficaram e outros que foram levados para um lugar seguro onde ninguém os possa revelar, dores abafadas, outras gritadas, lágrimas queimadas por um sorriso tímido, outras vitoriosas que marcam o rosto.

Um coração desfeito, uma razão que não existe, um pensamento trocado, uma alma que desfalece contra uma luta diária e sofrida. Uma vitória tão afastada, tão difícil, tão impossível, tão imensamente irreal. Um conflito entre dois seres que vivem no mesmo espaço, na mesma dimensão, no mesmo lugar incerto. Este conflito que invadindo as duas razões nos mostra a verdade e a mentira. A verdade sobre quem somos e a mentira sobre quem queremos ser. Isto sou eu e a artrite. Dois problemas que nasceram unidos, duas respostas com a mesma solução. Um mundo abandonado em que eu e ela damos as mãos, não para não nos perdermos, mas sim para não nos afastarmos. 

Deram-me o nome de Joana Andreia Cardoso e no dia de hoje tenho 23 anos, um mês e 8 dias. Estou sentada, sozinha, sobre uma cadeira na cozinha com um papel gasto, rasgado e sujo e uma caneta entre as mãos tentando passar para as letras o sentido de uma dor, uma angústia, um sofrimento real, uma lágrima retida, um sorriso desejado, uma felicidade falsa e um pensamento torcido.

Sou a Joana Cardoso, uma mulher que cresceu depressa, que aprendeu com a dor, que sorriu com a tristeza, que se alegrou com a incerteza e que por isso agarrou e agarra o tempo como se fosse ele o ar que a rodeia, o alimento que a sacia e a água que a purifica.

Deram-te o nome de artrite reumatóide infantil e no dia de hoje tens, provavelmente, 21 anos e 6 meses. Estás dentro de mim, sozinha, onde te encontras também sentada numa cadeira na cozinha e que comigo escreves estas letras tentando dar um sentido à tua dor, ao teu sufoco, à tua vontade de me deixares, à tua imensa necessidade de te libertares de mim.

És a artrite reumatóide, uma “doença” que me chegou devagar e silenciosa. Uma doença que tomou posse, primeiro do meu corpo, depois da minha liberdade e agora da minha vida.

Serás mais forte do que eu?

Será que te odeio?

Serás a razão dos meus gritos interiores, dos meus olhos vazios, do meu sorriso afastado?

Ao longo dos meus 21 anos de doença foste-me aprisionando de ter uma vida como antes desejava. Proíbes-me de dar o grande e o pequeno passo. Quero soltar-me para uma vida de alegria, mas não consigo – É este o passo grande. Quero, por exemplo, lavar o cabelo, mas não consigo – É este o passo pequeno.

Mas será isto motivo para te odiar? Será assim que demonstras ser mais forte do que eu ou causares-me gritos interiores e sorrisos afastados?

Sou a Joana Cardoso, uma mulher de 23 anos que sofre de artrite reumatóide infantil há 21. Uma mulher que cresceu depressa, que aprendeu com as inúmeras lágrimas escorridas sobre um rosto cansado de sofrimento e dúvidas.

Levanto-me, ergo-me deste “nosso” mundo – meu e da artrite – para espalhar ao universo, para responder gritando que não existe ninguém mais forte, que não nos odiamos e que acima de tudo não és a razão dos meus olhos vazios ou do meu sorriso desaparecido.

Damos as mãos não para não nos perdermos, mas sim, para não nos afastarmos.

Estamos juntas nesta vida e assim permaneceremos até que Alguém superior e melhor do que nós decida tentar o contrário.

Sofro não por tua causa, choro não por tua causa, sinto-me aprisionada e incapaz não por tua causa, mas sim pelo Homem. O Homem maldito que dá mais ênfase à força de um rio que arrasta tudo do que à margem que o suprime. Sofro por causa dele. Porque ele olha o Sol e não as estrelas que o rodeiam. Segura-se a uma árvore alta e aparentemente sólida e protectora, mas não às flores pequenas e frágeis que embelezam o seu redor.

A ti, artrite, agradeço “teres escolhido” o meu corpo para te instalares.

Como posso odiar algo que me transforma o espírito, que me ensina, que me faz olhar não para o todo, mas sim para os elementos que completam esse todo…

Como te posso odiar se me permites olhar e enxergar, tocar e sentir, ouvir e escutar, falar e acreditar…

Como te posso odiar se me fizeste amar o chilrear de um pássaro, o aroma de uma flor, o carinho a um desconhecido…

Como te posso odiar se me fizeste seguir novos caminhos, caminhos esses opostos aos do Homem comum, arrogante e insensível…

E finalmente, mas não com menor importância, como te posso odiar se me fizeste enxergar que na vida o que conta são as pequenas coisas e que nessas pequenas coisas está o fruto do meu maior e mais importante amor: JESUS. Eu e tu – artrite – somos uma só e é assim que seguiremos com a nossa vida de esforço. Sempre de mãos juntas.

Obrigada.

 
Joana Cardoso

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