Adolescência e Sexualidade

A adolescência é um período de grandes transformações e, se existir uma boa saúde física, emocional e social, é uma ajuda importante para lidar com as mudanças. Quando isso não acontece, a adolescência pode tornar-se um período mais problemático.

 

Quanto à doença crónica na adolescência, não existe consenso quanto ao verdadeiro número neste grupo etário, nomeadamente das doenças crónicas reumáticas (DCR). Estima-se que 1 em cada 10 adolescentes é portador de uma doença crónica.

 

A doença crónica (DC) pode perturbar o relacionamento social do adolescente, o seu rendimento escolar, a sua conduta perante as drogas “lícitas” (por ex. consumo de cerveja e vinho, após os 16 anos de idade, em Portugal) e ilícitas (por ex. consumo de álcool, tabaco, cannabis, ecstasy e outras drogas) e até mesmo o seu comportamento sexual; a DC pode modificar permanentemente a vida do indivíduo e requer uma constante adaptação.

O álcool é largamente tolerado num contexto social e, apesar do seu abuso levar a transformações num indivíduo, chegando a ser uma situação muito incapacitante, continua a estar presente na sociedade. O consumo excessivo de álcool e de outras formas de abuso são um problema comum em pré-adolescentes e adolescentes, assim como outros comportamentos sociais e consumos ilícitos. A adolescência, as suas alterações biológicas, psicológicas e sociais e a doença crónica influenciam-se reciprocamente, especialmente no comportamento social, sexual e rendimento académico. 

Durante muito tempo, defendeu-se que os adolescentes portadores de uma doença crónica seriam factor protector contra comportamentos de risco. No entanto, já existe muitas referências na literatura que demonstram que têm a mesma ou maior tendência para os comportamentos de risco (por ex. consumo de  álcool, hábitos tabágicos e relações sexuais desprotegidas) que os seus pares saudáveis. Esta situação pode ser explicada pelo desejo inconsciente que estes adolescentes têm de serem parecidos com os seus pares saudáveis. Apesar de estes comportamentos de risco poderem estar todos eles interligados, o consumo de álcool é uma das problemáticas da adolescência com maior impacto no funcionamento e nas consequências psicológicas e fisiológicas durante o seu consumo e após a sua supressão. 

As primeiras experiências com bebidas alcoólicas começam, muitas vezes, no ensino médio (entre os 13 e os 18 anos) e é a droga mais usada entre os estudantes desde grupo etário. Alguns estudos demonstraram que os jovens que beberam álcool antes dos 21 anos, tiveram uma tendência quatro vezes maior de desenvolver dependência de álcool e de se envolverem em violência relacionada com o mesmo, dos que consumiram durante ou após essa idade. Estes estudos sugerem que o consumo de altas doses de álcool numa idade precoce pode ter consequências neurológicas e psicológicas duradouras. 

O consumo excessivo de álcool é significativo no comportamento dos adolescentes: numa saída nocturna, aquele (binge drinking) define-se como um padrão de consumo de cinco ou mais bebidas no sexo masculino e de quatro no sexo feminino, em uma única ocasião. 

Na globalidade, a comparação dos dados sobre Portugal, no ano de 2011, com a dos outros países europeus concluiu que os indicadores sobre o consumo de álcool na adolescência, entre os 13 e os 18 anos, estão abaixo da média ou na média de outros países europeus (ou seja, existem menos consumidores adolescentes).

No entanto, no nosso país e no mesmo ano, os padrões de consumo intensivo e de embriaguez aumentaram. Estes padrões associam-se com maior frequência a mais comportamentos de risco, ou seja, uma maior probabilidade de consumo de outras drogas, também elas prejudiciais à saúde. De acordo com os dados estatísticos, em Portugal, no mesmo ano, a par do aumento dos padrões de consumo intensivo de álcool e embriaguez verificou-se aumentos relativos ao tabaco, inalantes e outras drogas ilícitas.

Os adolescentes que bebem compulsivamente ou até ocasionalmente, mas com consumo intensivo, estão mais sujeitos a acidentes de viação, a idas aos serviços de urgência por intoxicação de etanol (álcool), mais propensos a se envolverem em brigas, e ainda a outros comportamentos de risco, como é o caso das meninas serem agredidas sexualmente e estarem mais sujeitas a uma gravidez indesejada, assim como os rapazes, com o mesmo tipo de comportamento, a poderem engravidar as suas parceiras ocasionais.

O transtorno, por uso de álcool, está associado a vários distúrbios psiquiátricos, incluindo depressão, transtornos alimentares e de ansiedade. Estes  podem ser mais ou menos graves, consoante os factores genéticos poderem influenciar na absorção do álcool, no metabolismo (que é efectuado no fígado e consiste no processo de transformação do álcool em outras substâncias que depois serão eliminadas pela respiração e pela urina) e nas interacções do etanol com o cérebro.

Se tivermos em conta que os estudos que se debruçaram sobre este tema referem que os adolescentes com doença crónica têm tendência igual ou maior que os seus parceiros saudáveis para os comportamentos de risco, como é o caso do consumo de álcool, torna-se preocupante também para os jovens com DCR, como é o caso da Artrite Idiopática Juvenil (AIJ). 

Quando falamos em AIJ, devemos ter em conta que esta designação engloba várias doenças, pelo que deveríamos falar em AIJs,  pois elas diferem não só na apresentação clínica, como também no seu curso, no prognóstico e na resposta aos medicamentos. 

O tratamento das AIJs firma-se, fundamentalmente, em medicamentos que suprimem a actividade inflamatória. Sendo assim, os medicamentos mais utilizados são os anti-inflamatórios não esteróides (AINEs), nomeadamente ibuprofeno, naproxeno, indometacina, e os agentes anti-reumáticos modificadores do curso da doença (DMARDs) metotrexato (MTX), sulfasalazina e mais raramente a ciclosporina A ou até mesmo a azatioprina. Estes podem ter efeitos adversos, pelo que têm de ser geridos adequadamente pelos reumatologistas e pediatras com experiência em Reumatologia Pediátrica, durante as avaliações clínicas para controlo da doença e, ainda, através dos exames laboratoriais que os doentes efectuam regularmente.

No entanto, também é necessária a colaboração do doente evitando expor-se a riscos desnecessários, pois o consumo de álcool na adolescência, nomeadamente os padrões de consumo intensivo, são prejudiciais para a saúde. Se a esses consumos se associarem os tratamentos das AIJs ou de outra DCR, não será difícil prever que estes jovens correm maior risco de apresentar complicações.

Os efeitos adversos do álcool podem sobrepor-se aos dos medicamentos mais utilizados para controlar a doença, podendo atingir vários órgãos. O aumento das enzimas hepáticas é, sem dúvida, uma preocupação, podendo levar a uma lesão hepática aguda ou até mesmo crónica, pois esta associação pode ser tóxica para o fígado. No caso específico da fusão entre o álcool e os AINEs pode também surgir diminuição do apetite e ainda, tal como os corticosteróides (vulgarmente designados por cortisona) que se utilizam em casos seleccionados, podem inflamar o estômago podendo surgir gastrite ou úlcera gástrica. Outro exemplo é o surgimento ou agravamento das náuseas, do desconforto abdominal e da dor de cabeça, no caso da associação com a toma de MTX.

Alguns destes jovens, uma minoria, mantêm a sua doença activa apesar da terapêutica convencional de primeira linha. Deste modo, vão necessitar de uma escalada terapêutica para controlar essa actividade e preferencialmente atingirem a sua remissão, permitindo uma actividade diária e um desenvolvimento adequados e, assim, uma boa qualidade de vida. Nesses doentes é necessário a introdução de agentes biológicos.

Da terapêutica biológica disponível para o tratamento das AIJs destaco:

- Os inibidores do factor de necrose tumoral (anti-TNF) como são o etanercept e o adalilumab e ainda o infliximab (este ainda não aprovado para o tratamento da AIJ);

- O inibidor da interleucina-6 (IL-6), o Tocilizumab, aprovado para a o tratamento da AIJ sistémica;

- Os inibidores da interleucina-1 (IL-1), como o anakinra e o canakinumab, também ainda não aprovados para o uso do tratamento da AIJ.

Todos estes agentes biológicos têm um efeito supressor das respostas do sistema imune que são responsáveis pelas muitas manifestações das AIJs. Estes agentes, como os DMARDs, podem levar a uma susceptibilidade maior às infecções e, ocasionalmente, aumentar as enzimas hepáticas, ou até outras complicações muito mais raras, pelo que o seu uso concomitantemente com o abuso do álcool não será recomendado, não só pela toxicidade provocada no fígado, como também pela debilidade física e psicológica provocada ao adolescente consumidor.

Este cruzamento entre o abuso do álcool por parte dos adolescentes portadores de AIJs, coloca-se também aos jovens que apresentam outras DCR, como são exemplo o Lúpus Eritematoso Sistémico Juvenil e a Dermatomiosite Juvenil, que no seu dia a dia fazem uso de alguns destes medicamentos já referidos (como são exemplo a azatioprina, o MTX, a ciclosporina A, os corticosteróides) ou de outros mais indicados para controlo da sua doença.

Claro que existem, em Portugal e em muitos outros países do mundo, estratégias potenciais preconizadoras da luta contra esta problemática do abuso do álcool, em particular neste grupo etário. Existe desde legislação e campanhas a programas multidisciplinares de base comunitária de prevenção do abuso de álcool.

No entanto, é muito importante também que este tema seja abordado nas consultas pelos vários profissionais de saúde que prestam cuidados a estes adolescentes, nomeadamente os médicos assistentes e enfermeiros. As próprias associações de doentes podem ter também um papel importante chamando a atenção sobre este tema e aconselhar os pais e outros familiares; mas a estrutura e o apoio do agregado familiar têm também um papel preponderante nesses comportamentos, assim como o próprio adolescente.

Ou seja, somos todos intervenientes nesta problemática da adolescência, mais ou menos complexa e em particular quando se cruza com a doença crónica, neste caso com a DCR e, sobretudo, com as AIJs por serem as doenças mais frequentes neste grupo, abrangendo um maior número de adolescentes.

 
Médica Pediatra, Secretária Geral da ANDAI – Associação Nacional de Doentes com Artrites Infantis e Juvenis. Assistente Graduada de Pediatria Médica, Responsável pela Unidade de Reumatologia Pediátrica e Coordenadora da Unidade de Intervenção Ambulatória Médica do Hospital de Dona Estefânia- CHLC, EPE. Assistente Convidada da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. 
 
 

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